Pesquisas em ensino de física/ensino de ciências e a questão do audiovisual na EaD

Parte da reflexão coletiva sobre avaliação & pesquisa da equipe de produção do Lantec, no que tange ao audiovisual, se materializou em questões em que a dimensão estética estava sempre presente como: qual a relação entre elementos estéticos dos vídeos e aprendizagem? Que tipo de vídeo mais agrada aos alunos em termos estéticos?
O trabalho do NUPA então é buscar conexões entre a pesquisa da área e essas demandas reflexivas. Eis aqui, um pouco do início desse trabalho no que tange ao audiovisual.
O artigo de Gerbase (2006), “Desafios na construção de uma estética audiovisual para educação à distância (EAD)”, não é da área de ensino de física. Trata-se de um relato sobre os desafios enfrentados pela produção do audiovisual para a Educação a Distância. A difícil passagem da simples “aula filmada” (ou “teatro mal filmado” como coloca o autor) para um efetivo uso dos elementos estéticos da linguagem audiovisual. Entre os elementos que aponta para essa mudança estariam: 1. Variar o ponto de vista (colocar mais câmeras); 2. Utilizar outras ferramentas de apoio visual além do PowerPoint; 3. Melhorar enquadramentos e iluminação; 4. Mudança, muito difícil, da atuação do professor diante da câmera. O ideal seria sair do esquema expositivo/sala de aula e passar a utilizar mais o esquema estético narrativa/mundo. Finaliza colocando a importância do trabalho efetivamente colaborativo, durante a produção, entre professor e equipe do audiovisual, que poderia passar por 5 etapas: roteirização, pré-produção, preparação do professor, produção e pós-produção. O professor seria importante estar presente em todos os momentos, exceto na pré-produção. No entanto, o artigo não aprofunda suficientemente esses pontos, nem toca na questão da recepção. Mas creio que exemplifica alguns aspectos que foram discutidos na equipe de produção da Física no Lantec.
Eis uma questão para o caso da física: sendo as deduções, demonstrações, enfim, o uso da linguagem formal matemática tão importante em aulas de física, e não apenas para resolver problemas, mas como modo de pensar e “dizer” específicos dessa forma de conhecimento que é a física, como isso se coaduna com um bom uso da linguagem audiovisual que potencialize seus elementos estéticos específicos? Creio que deixar de utilizar totalmente a linguagem matemática não seja uma boa saída, pela descaracterização da física enquanto forma de conhecimento com sua especificidade.
Vejamos então alguns exemplos sobre como a área de pesquisa em ensino de física e educação científica e tecnológica tem pensado a questão do audiovisual.
O artigo de Rezende Filho, Pereira e Vairo (2011) foi publicado na Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, da ABRAPEC, e se trata de uma revisão bibliográfica sobre os recursos audiovisuais no ensino de ciências realizada nos periódicos da área, de 2000 a 2008. Conclui que a maior parte dos trabalhos vê o audiovisual numa concepção de instrumentalidade, onde seus aspectos estéticos e de linguagem são praticamente esquecidos em função única e exclusivamente de seu conteúdo. Vale a pena reproduzir dois trecho desse artigo:

“Os trabalhos que tratam de questões relacionadas às condições de aprendizagem de ciências [entre elas a física] com vídeo, ou seja, que procuram analisar a eficiência da aprendizagem com os RAVs [recursos audiovisuais], parecem limitar-se à afirmação de que estes funcionam ou têm o seu uso aprovado pela maioria dos alunos, tendo por base testes e questionários. Não se preocupam, no entanto, em entender, por exemplo, porque “funcionam” ou não, se há relações com a composição ou escolhas estéticas feitas nos vídeos utilizados ou com o contexto cultural em que a aprendizagem ocorre. Ou seja, não se questiona a existência de problemas estéticos, históricos, epistemológicos ou culturais nos RAVs usados em situações de ensino-aprendizagem. Não aparecem, de forma relevante, portanto, questões que tratem destes aspectos.” (idem, p. 201).

E num outro trecho:

“Nenhum destes trabalhos traz qualquer consideração sobre questões estéticas da produção de vídeos, como as possibilidades de variados usos de recursos de expressão e composição audiovisual ou sobre as consequências estéticas da escolha entre essas alternativas. Machado (2008, p. 293) foi o único autor que apontou, ainda que de forma breve nas conclusões, que os filmes têm “diferenças estéticas e narrativas que precisam ser mencionadas”. Isso nos permite supor que a dimensão estética inerente à produção de qualquer obra audiovisual é negligenciada ou minimizada nos artigos da área de Educação em Ciências. Ou os autores não consideram relevante tal dimensão, ou não conseguem identificar de que forma tais questões têm relações com seus interesses/objetos de pesquisa.” (idem, p. 197)

Um levantamento complementar, de 2008 até 2012, vem sendo realizado e será tema de outro postagem. Mas já podemos apontar uma exceção. É a tese de Ramos (2010), intitulada “Na Pauta das Aulas de Ciências: Discussão de Controvérsias Científicas na Televisão”, em que analisa produções escritas e orais de alunos em sala de aula presencial no ensino médio quando discutem trechos de diferentes vídeos sobre mudanças climáticas. Um recorte do trabalho foi apresentado no ENPEC de 2009. A autora problematizou a questão da relação entre forma e conteúdo, evidenciando a necessidade de se trabalhar a forma em aulas de ciência, junto com o conteúdo. No entanto, a análise da relação dos alunos com o vídeo, no caso, se deu pela análise de suas produções verbais nas próprias interações em sala de aula com a professora e outros alunos e por meio de atividades desenvolvidas por escrito pelos alunos que já supunham, como parte da concepção de ensino adotada pela própria autora-professora, a relação entre forma e conteúdo. Ou seja, se queremos analisar o funcionamento da dimensão estética nas relações, interações e contextos de ensino, sejam eles, presenciais ou virtuais, facilitaria a coleta de informações se as atividades desenvolvidas já trabalhassem os elementos estéticos como componente pedagógico.
O artigo de Vergara e Buchweitz (2001), publicado na Rev. Bras. Pes. Educ. Cien., analisa, por meio de um questionário, um teste escrito e entrevistas, o papel de um vídeo na aprendizagem de conceitos de ótica. Mas não é exatamente a relação com os elementos do vídeo o que é analisado, mas o resultado da aprendizagem pela avaliação conceitual (“avaliar o efeito das atividades de ensino na aprendizagem”, p. 5).
Com base nesses trabalhos podemos dizer que a pesquisa em educação científica e tecnológica, incluindo aí aquelas sobre ensino de física, pode contribuir pouco para a produção de recursos audiovisuais para a Educação a Distancia, para o diálogo entre professor da área de conteúdo e equipe audiovisual, cujas preocupações e conhecimentos estão justamente nos aspectos estéticos, considerando o estético como elemento fundamental do modo como os conteúdos se tornarão linguagem audiovisual.
No entanto, as revisões bibliográficas encontradas não citam qualquer trabalho no campo de educação que tenha analisado a recepção de vídeos por estudantes, em que se tenha levado em conta seus aspectos estéticos, o que pode representar um exemplo para a área de educação científica e tecnológica. Trata-se de outra frente de buscas que pretendemos ainda realizar.
Ressaltamos ainda que outra frente possível, a ser explorada, aquela que trata da relação entre media literacy e science teaching, ou visual literacy in sciente teaching, termos presentes na literatura internacional. Uma lista de blogs, artigos e livros sobre esses temas pode ser encontrada neste site (em inglês).

Henrique Silva
com apoio da equipe do NUPA: Keilli Luz (bolsista), Everson Vargas (voluntário)

Sobre Henrique Silva

Formado em Física, Doutor em Educação, professor do Centro de Ciências da Educação da UFSC. Pesquisador da área de Ensino de Física/Ensino de Ciências.
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